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MC Poze, a mídia e o Estado: a prisão como espetáculo da desumanização do homem negro

  • Foto do escritor: Lara Eliza Ferreira
    Lara Eliza Ferreira
  • 30 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Lara Eliza


Na manhã do dia 29 de maio de 2025, a Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu o cantor MC Poze do Rodo, sob acusações de apologia ao crime e envolvimento com o tráfico de drogas. A operação teve contornos típicos de um espetáculo midiático: a cobertura em tempo real, a exibição das joias apreendidas, a menção insistente ao valor dos bens e à suposta relação com facções criminosas. Nenhuma arma foi encontrada. Mas uma imagem foi construída — e essa imagem é velha conhecida da sociedade brasileira: a do homem negro, perigoso, ameaçador, incontrolável.


Não é papel desta matéria defender ou julgar Poze. Isso cabe à justiça, com direito ao devido processo legal, à ampla defesa e ao contraditório. O que está em análise aqui é outra coisa: a forma como o Estado e a mídia abordam corpos negros acusados — não condenados — de crimes, e como essa abordagem reforça o processo contínuo de desumanização da população negra no Brasil.


O negro como corpo-prova

Fonte: Divulgação
Fonte: Divulgação

A forma como a figura de MC Poze foi tratada após a prisão reforça o conceito que Tijaru trabalha em seus estudos sobre a imagem pública de homens negros: o corpo negro como corpo-prova. Não é preciso um julgamento, não são necessárias provas definitivas — o corpo negro, por si só, já carrega a condenação simbólica. Tijaru aponta que a espetacularização das prisões de pessoas negras — especialmente de figuras públicas oriundas das favelas — serve para alimentar a narrativa do "controle necessário" sobre os "corpos perigosos".


Frantz Fanon, em "Pele Negra, Máscaras Brancas", já analisava como o negro é objetificado desde a infância, reduzido a estereótipos que o animalizam. Para Fanon, a negritude se torna uma prisão identitária no olhar do outro branco. No Brasil, esse olhar é reproduzido pelas instituições do Estado e pela imprensa.


MC Poze não foi apresentado como cidadão, artista, pai de família ou jovem periférico que ascendeu socialmente — ele foi exibido como inimigo. E ao fazer isso, o Estado reafirma o papel histórico que atribui ao homem negro: o de ameaça social.


A mídia como braço do racismo estrutural


Fonte: Divulgação
Fonte: Divulgação

Grada Kilomba, em "Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano", afirma que o racismo se estrutura também pela forma como se conta — ou se apaga — a história de certos corpos. A forma como a prisão de MC Poze foi noticiada é exemplo disso. As manchetes enfatizavam seus cordões de ouro, o suposto “vínculo” com o tráfico, e omitiram qualquer complexidade social em torno da sua trajetória.


Não houve tentativa de contextualizar a realidade das favelas, a relação entre o funk e os territórios marginalizados, ou mesmo a construção da imagem pública de Poze como artista que representa milhares de jovens pretos. Quando se trata de artistas negros da favela, a mídia brasileira frequentemente abandona o jornalismo e se aproxima do julgamento moral e racial.


Silvio de Almeida, em "Racismo Estrutural", afirma que o racismo não é apenas um comportamento individual, mas um conjunto de práticas institucionais e simbólicas que perpetuam desigualdades. A prisão de MC Poze, sua exposição pública e a reação social que seguiu são provas de como o racismo estrutura até mesmo o que chamamos de "notícia".


A estética do castigo público


Ao prender Poze com estardalhaço, expor seus bens pessoais como "provas" (mesmo que legais), e exibir sua imagem como símbolo de ameaça, o Estado brasileiro performa uma punição pública. E essa punição é direcionada a ele, sim, mas também aos que ele representa: jovens negros e periféricos que ousam ascender socialmente, ocupar espaços de prestígio e construir narrativas próprias.

É um recado que remete aos tempos coloniais: negro não pode brilhar, não pode ser exuberante, não pode ser referência. Como Kilomba escreve, “o sucesso da pessoa negra é sempre um excesso a ser contido”.

 
 
 

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